Rádio CN Agitos

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Governo libera saque de contas inativas do FGTS.

O governo federal anunciou nesta quinta-feira (22) uma série de medidas para tentar estimular a economia brasileira. Dez milhões e duzentos mil trabalhadores vão poder sacar todo o dinheiro que estava bloqueado em contas inativas do FGTS. O total de saques pode chegar a R$ 30 bilhões.
A medida foi anunciada pelo presidente Michel Temer durante um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto. O objetivo do governo é injetar R$ 30 bilhões na economia brasileira. O trabalhador poderá sacar o dinheiro das contas inativas do Fundo de Garantia e usar da forma que quiser.

“O momento que nós vivemos na economia demanda a adoção de medidas que permitam, ainda que de forma parcial, uma recomposição da renda do trabalhador e, portanto, estamos permitindo que os trabalhadores detentores dessas contas, até 31 de dezembro de 2015, possam dispor de um recurso que em condições normais não estaria ao seu alcance”, disse o presidente.
O governo garante que a medida não traz risco para os setores que usam o dinheiro do FGTS, como habitação, mobilidade urbana e saneamento. “É uma injeção de recursos que vai mobilizar, vai movimentar a economia e equivale, pelos cálculos do Planejamento, a cerca de 0,5% do PIB”, disse Temer.
Até agora, o trabalhador que tinha pedido demissão de um emprego podia sacar o dinheiro do Fundo de Garantia três anos depois sem nenhum outro emprego com carteira assinada. Esse prazo não vai existir mais para quem pediu demissão até 31 de dezembro de 2015.
Agora, esse trabalhador vai poder sacar o FGTS mesmo que já esteja formalmente empregado de novo. Mas atenção: o trabalhador não vai poder sacar o FTGS de uma conta ativa, ou seja, com dinheiro depositado pelo empregador atual. Também não tem direito ao benefício quem pediu demissão em 2016.
Não haverá limite de saque das contas inativas e o valor integral poderá ser retirado. A maior parte das contas inativas do país (86%) tem cerca de um salário mínimo de saldo.
Há várias maneiras de descobrir quais são as contas inativas e o saldo de cada uma delas. É possível baixar o aplicativo do FGTS da Caixa em qualquer smartphone. Depois de instalar, é preciso informar o NIS/PIS, que é o número de inscrição social. Você pode pegar esse número na carteira de trabalho, no extrato do FGTS ou no Cartão do Cidadão.
O analista de negócios Felipe Lima Silva correu para o aplicativo para checar quanto vai pode tirar.
JN: Você sabe quantas contas inativas você tem?
Felipe: Quatro, consultei hoje.
JN: Tem um valor razoável lá para tirar?
Felipe: Sim. Tem.
JN: E o que você vai fazer?
Felipe: Pagar conta.

Também dá para acessar o extrato do FGTS com o Cartão do Cidadão e no site da Caixa. É preciso ter o número do PIS e cadastrar uma senha. Quem tiver dúvida, pode ligar de graça para o 0800 da Caixa (0800 726 0207). Mas, no dia em que a medida foi anunciada, o telefone, o site e o aplicativo ficaram sobrecarregados. Muita gente não conseguiu acesso. A Caixa reconhece que houve instabilidade no sistema nesta quinta por conta da grande demanda. Disse que os problemas já foram corrigidos e que as equipes estão em alerta caso seja necessário.
De modo geral, os economistas ouvidos pelo Jornal Nacional aprovaram a atitude do governo, porque o trabalhador vai poder ter acesso a um dinheiro que é dele e que está preso em contas que rendem muito pouco.
“Achei muito boa, porque quem perde no Fundo de Garantia é o dono do dinheiro, é o trabalhador. Quando ele recebe os depósitos todo mês, o rendimento que o Fundo de Garantia proporciona é ridículo. Ele é menor do que a poupança, que já é um rendimento pequeno. Então, é uma medida boa. Nesse momento de aperto geral, qualquer assopro já é um alívio”, explicou o professor de economia da Universidade de São Paulo Hélio Zylberstajn.
E que alívio. A emprega doméstica Marisa dos Santos que o diga: “dívidas para pagar. Está meio acumulada, estourou um pouquinho, mas se Deus quiser vai dar tudo certo.”
O professor de Finanças do Insper Ricardo Humberto Rocha recomenda a retirada do saldo das contas inativas porque o rendimento é muito baixo no FGTS.
“Eu diria que as pessoas obrigatoriamente devem retirar esse dinheiro. Essa é uma oportunidade em função da crise. Porque qualquer aplicação financeira, mesmo a boa e velha caderneta de poupança, rende muito mais do que o FGTS”, explicou.
“Vou aplicar em outro lugar. Fazer qualquer coisa, mas que renda alguns juros, que eu possa aproveitar mais esse dinheiro”, disse o estagiário contábil Lairton da Silva Maurício.
Mas não adianta correr para o banco para sacar agora. “Nós divulgaremos um calendário a depender da data de nascimento das pessoas. Esse calendário será divulgado até o início de fevereiro, de modo que não há necessidade de as pessoas atropeladamente correrem à Caixa para essa retirada”, disse o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira.

domingo, 13 de novembro de 2016

Três vacinas contra zika são testadas em humanos; resultado deve levar anos.


Ao menos três vacinas contra o vírus da zika já estão sendo testadas em humanos. Os testes, de primeira fase, vão verificar se elas causam algum problema para as pessoas que a tomarem. Contudo, os pesquisadores alertam que a vacina deve levar anos para se provar eficiente e estar no mercado.

No início da semana, começou a ser aplicada em humanos uma vacina feita a partir do vírus inativado criada pelo Instituto de Pesquisas do Exército Walter Reed (WRAIR). Esse teste será realizado com 75 pessoas de 18 a 49 anos. Outra vacina de DNA, desenvolvida no NIH (National Institute of Health), é testada desde setembro em 80 voluntários, entre homens e mulheres, nos Estados Unidos.

Há ainda uma terceira vacina em teste clínico, a do laboratório norte-americano Inovio, que teve aprovação para os testes no fim de junho.

O vírus da zika está associado a lesões neurológicas em fetos e ao desenvolvimento de doenças como Guillain-Barré.

Desde 2015, 67 países tiveram o surto de zika, sendo que em pelo menos sete há uma crise endêmica. Até a semana passada, a organização somava 2.257 casos de microcefalia pelo mundo, sendo que 2.079 estavam no Brasil.

Os Estados Unidos, onde o vírus chegou mais tarde, já têm 28 crianças nascidas com microcefalia ou outras alterações neurológicas.

Bom desempenho em animais

Em março, a OMS (Organização Mundial da Saúde) informou que havia mais de 60 grupos de cientistas pelo mundo trabalhando em pesquisas para desenvolver a vacina contra a zika.

Desde então, alguns grupos já testaram seus modelos de vacina em camundongos e, em uma fase posterior, em primatas.

Nesta quinta-feira (10), um estudo publicado na Nature mostrou que a vacina de DNA, criada pelo Instituto Wistar, na Filadélfia, foi capaz de produzir anticorpos e reduzir a mortalidade e a perda de peso em testes feitos com camundongos e com macacos rhesus.

As vacinas com DNA não têm o vírus completo, apenas a capa de proteínas, mas são capazes de estimular o corpo dos animais que as recebem a criar anticorpos contra o vírus da zika.
"Se der certo, pode ser a primeira vez que uma vacina de DNA seja aprovada no mundo", comenta Leda Castilho, pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) envolvida na produção da vacina do NIH.

Vacina no mercado ainda deve demorar

As três vacinas que já estão em testes com humanos tiveram de provar, antes, que eram eficientes em evitar a infecção de macacos pelo vírus da zika.
"Nossa vacina está bastante avançada. Fizemos ao longo do primeiro semestre a construção gênica e os testes em animais. Mas precisamos saber se ela é segura e se ela é eficaz em humanos", explica Leda.
Contudo, os pesquisadores alertam que do desenvolvimento das pesquisas até a vacina se provar eficiente e estar pronta para o comércio o trajeto deve levar anos.
Caso a vacina se prove segura e seja aprovada na fase 1 do teste --o que se deve saber até o final do ano-- deverá ter início em 2017 os testes com voluntários de diversos países para checar se as pessoas desenvolvem anticorpos contra o zika. Essas pessoas deverão ser acompanhadas por cerca de dois anos e, provavelmente, terão de ser expostas ao vírus para checar a eficácia de sua proteção contra o contágio.
Depois disso, as vacinas ainda precisam ser aplicadas em uma mostra com mais voluntários –milhares—que devem ser acompanhados ao longo de cerca de três anos. 
Estamos falando de pelo menos cinco anos, se tudo der muito certo" Mauro Martins Teixeira, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
Como comparação, Leda cita o exemplo da vacina de dengue aprovada pela Anvisa neste ano. "A vacina de dengue da Sanofi, por exemplo, levou 20 anos para ser desenvolvida e aprovada."

domingo, 23 de outubro de 2016

Brasileiros criam teste que diagnostica 416 doenças, inclusive a zika.


Lâminas de vidro usadas no teste; a da esquerda contém as 15 mil sondas que formam o microchip

Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), em Ribeirão Preto, desenvolveram uma plataforma capaz de diagnosticar, em amostras clínicas de pacientes, 416 vírus encontrados nas regiões tropicais do planeta.

Na avaliação do pesquisador, se uma ferramenta como essa estivesse disponível na época em que o vírus da zika começou a circular no Brasil, talvez tivesse sido possível restringir a infecção a seu foco original. "Demoramos para perceber que estava ocorrendo uma epidemia no país porque ninguém estava pensando em zika naquele momento", disse Aquino.
A ferramenta, segundo seus criadores, poderá ser usada por centros de referência – como o Instituto Adolfo Lutz, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Evandro Chagas – para fazer a vigilância epidemiológica de patógenos com potencial para causar epidemias em humanos.
Além dos vírus que já causam impacto significativo na saúde pública brasileira, o teste abrange outros que, por enquanto, só foram detectados de forma esporádica, mas apresentam potencial para se tornarem epidêmicos.
Um exemplo é o vírus Mayaro – alphavirus parente do chikungunya transmitido por mosquitos silvestres, como o Haemagogus janthinomys. Outro é o vírus Oropouche, que até o momento causa epidemias restritas às regiões ribeirinhas da Amazônia
Inicialmente o teste teria um alto custo e não estaria disponível para toda a população, apenas para pacientes com suspeita de dengue, zika ou outras doenças febris que não tiveram um diagnóstico definido pelos métodos convencionais.
Segundo os cálculos do pesquisador, com cerca de US$ 2 mil seria possível testar amostras de oito pacientes apenas. A plataforma ainda está em desenvolvimento, mas os cientistas estão trabalhando para tentar reduzir os custos.

Como funciona

A plataforma contém uma lâmina de vidro – do tipo usado em microscópio – à qual são presas 15 mil sondas, formando uma espécie de microchip (microarray). Cada sonda contém impressas sequências de 60 nucleotídeos complementares ao genoma dos vírus a serem detectados.
Segundo Aquino, as sequências foram montadas com base nas informações do GenBank, um banco público de informações mantido pelos EUA, e com auxílio de ferramentas de bioinformática.
"Caso a amostra de sangue contenha um dos 416 vírus incluídos no microchip, o genoma do patógeno vai se ligar a uma dessas sondas, deixando uma marcação que pode ser detectada com um scanner", explicou Aquino.
Nos testes realizados, não foi identificada a ocorrência de reação cruzada, situação em que o resultado dá positivo para mais de um agente infeccioso e dificulta o diagnóstico.
No entanto, segundo Aquino, o método se mostrou eficaz para diagnosticar casos de coinfecção – por exemplo, quando um mesmo paciente é infectado pelo vírus da zika e dengue ao mesmo tempo.
A pesquisa foi publicada na revista PLOS Neglected Tropical Disease.